Como diriam os falantes de língua espanhola – “Del dicho al hecho hay gran trecho” – ou seja, “de dizer ao fazer há muita distância”. Levou-se décadas até que o Bitcoin viesse a existir, e a dar forma a todo esse ideal libertário que já vinha latente e despontando há décadas, consequentemente abrindo as portas para uma imensidão de possibilidades.

A História do Criptoanarquismo

Para se entender um pouco mais sobre o passo largo que os libertários deram na História, nada como observar de perto os passos que foram dados nessa longa trilha rumo à consolidação das criptomoedas.

Antes da década de 1970, o estudo e utilização da criptografia foi exercida secretamente por agências militares ou até mesmo espiões. Contudo, esse panorama mudou radicalmente a partir de duas publicações: a publicação do padrão de criptografia de dados do governo dos Estados Unidos, assim como o primeiro trabalho disponível publicamente sobre criptografia de chave pública, conhecido como “Novas direções em criptografia” do Dr. Whitfield Diffie e Dr. Martin Hellman.

Na década de 80, o Dr. David Chaum escreveu susbstancialmente sobre temas como sistemas anônimos de dinheiro digital, e pseudônimo de reputação, descritos em seu artigo “Segurança sem identificação: sistemas de transação para tornar o Big Brother obsoleto”.

Ao longo do tempo, todas essas ideias descentralizadas acabaram tomando vulto através de um movimento.

Ao final de 1992, Eric Hughes, Timothy C. May e John Gilmore formaram um pequeno grupo que se reunia mensalmente na empresa da Gilmore – a Cygnus Solutions – na área da Baía de São Francisco. A esse grupo, de maneira bem humorada, foi dado o nome de “cypherpunks”, derivando de “cypher” (cifra)” e “cyberpunk”

Uma lista de discussão foi criada na mesma época, e meses depois Eric Hughes publicou o conhecido “A Cypherpunk’s Manifesto” (O Manifesto Cypherpunk), onde em um trecho ele diz:

A privacidade é necessária para uma sociedade aberta na era eletrônica. A privacidade não é sigilo. Um assunto privado é algo que alguém não quer que o mundo inteiro conheça, mas uma questão secreta é algo que alguém não quer que outros conheçam. Privacidade é o poder de revelar-se seletivamente ao mundo.

O fato de querer privacidade nada tem a ver com vocẽ querer esconder algo de alguém, ou de todos, como comumente se pensa. Muitos raciocinam da seguinte maneira: “Mas por que esconder algo das pessoas? Só o faz aquele que tem algo a esconder, e se tem algo a esconder é porque está fazendo algo errado”.

Essa premissa está completamente equivocada!

Querer privacidade nada tem a ver com esconder algo errado, e sim um direito que se tem de escolher revelar ou não alguma coisa ao mundo do que se está fazendo.

Vamos para um exemplo prático. Acredito eu que todos em suas casas tenham cortinas, impedindo assim que as pessoas possam ver o que se passa dentro da sua casa, correto?! Isso não quer de modo algum dizer que você esteja fazendo algo ilegal em sua própria casa, mas sim que você não tem o menor interesse em se preocupar com o “custo potencial” de se revelar ao mundo exterior.

E já que estamos falando deste movimento, nada como conhecer os frutos do mesmo. Vamos conhecer algumas dessas grandes mentes e seus projetos?

  • Jacob Appelbaum: desenvolvedor do Tor
  • Julian Assange: fundador da WikiLeaks
  • Dr. Adam Back: Inventor do Hashcash, co-fundador da Blockstream
  • Bram Cohen: Criador do BitTorrent
  • Hal Finney: autor principal do PGP 2.0, criador do protocolo RPoW (prova de trabalho reutilizável)
  • Tim Hudson: Co-autor de SSLeay, o precursor da OpenSSL
  • Paul Kocher: co-autor do SSL 3.0
  • Moxie Marlinspike: fundador da Open Whisper Systems (desenvolvedor do sinal)
  • Steven Schear: Criador do conceito de “warrant canary”
  • Bruce Schneier: conhecido autor de segurança
  • Zooko Wilcox-O’Hearn: desenvolvedor DigiCash, fundador da Zcash
  • Philip Zimmermann: Criador do PGP 1.0

A década de 1990 surge como um palco de guerra Cripto, onde os EUA tentou sufocar a disseminação de criptografia comercial. Uma vez que o mercado na área de criptografia foi quase que exclusivamente militar, tendo sido inclusive incluída como item da categoria XIII da Lista de Munições dos EUA, ela possuía regulamentos rígidos que impediam a sua “exportação”.

A limitada chave SSL “compatível com exportação” limitado a 40 bits  podia ser quebrada em poucos dias utilizando apenas um único computador pessoal.

Os desafios legais dos libertários e dos defensores da privacidade, a ampla disponibilidade de software de criptografia fora dos EUA, bem como um ataque bem-sucedido de Matt Blaze contra o backdoor proposto pelo governo – o Clipper Chip – acabou levando o governo a recuar.

Clipper Cypherpunks e o Despertar da Força... Libertária!

Ainda na década de 90, em 1997, o Dr. Adam Back criou o Hashcash, que foi projetado como um mecanismo anti-spam que essencialmente adicionaria um custo (tempo e processamento) ao envio de email, tornando o spam nada econômico.

Ele vislumbrou que o Hashcash seria bem mais simples de utilizar do que o Digicash de Chaum, pois não era necessário criar uma conta para utilizá-lo. Adicionalmente o Hashcash teve alguma proteção contra “gasto duplo”.

Posteriormente, em 1998, Wei Dai trouxe à tona a proposta do “b-money“, uma maneira simples e prática de fazer com que acordos contratuais fossem cumpridos entre autores anônimos, bem como traz a proposta de criação de uma criptomoeda. Inclusive vale ressaltar o princípio da proposta, que traz indelével a marca do pensamento libertário:

Estou fascinado com a cripto-anarquia de Tim May. Ao contrário das comunidades tradicionalmente associadas à palavra “anarquia”, em uma cripto-anarquia, o governo não é temporariamente destruído, mas permanentemente proibido e permanentemente desnecessário.

É óbvio que os Cypherpunks já estavam desenvolvendo todo esse trabalho há décadas, experimentando e construindo os arcabouços de que precisávamos, e o ponto crucial foi a criação do dinheiro do cypherpunk na década de 2000.

Em 2004, Hal Finney criou o RPoW – prova de trabalho reutilizável, que foi construído no Back’s Hashcash. RPoWs eram tokens criptográficos únicos que só podiam ser utilizados apenas uma vez, bem como as saídas de transação não gastas em Bitcoin. Contudo, a validação e proteção contra gasto duplo ainda era realizada por um servidor central.

Nick Szabo publicou a sua proposta do “bit gold” em 2005 – um colecionável digital desenvolvido com base na proposta de Finney (RPoW). Entretato, Szabo não propôs um mecanismo para limitar a quantidade total de bit gold, pois antes chegou a pensar que as unidades seriam valorizadas de forma diferente com base na quantidade de trabalho computacional realizado para criá-las.

Finalmente, em 2008, Satoshi Nakamoto, um pseudônimo para um ou mais indivíduos não identificados, publicou o white paper do Bitcoin, citando o Hashcash e o b-money. De fato, Satoshi enviou um email a Wei Dai diretamente, mencionando o que ele aprendeu sobre o b-money.

Satoshi, igualmente a Eric Hughes, dedicou uma seção do white paper para tratar do assunto privacidade, onde se lê:

“O modelo bancário tradicional atinge um nível de privacidade, limitando o acesso a informação às partes envolvidas e ao terceiro confiável. A necessidade de anunciar todas as transações publicamente inviabiliza esse método, mas a privacidade ainda pode ser mantida através da quebra do fluxo de informações em outro lugar: mantendo as chaves públicas anônimas. O público pode ver que alguém está enviando um valor para outra pessoa, mas sem informações que liguem a transação a quem quer que seja. Isso é semelhante ao nível de informação divulgado pelas bolsas de valores, onde o tempo e a extensão dos negócios individuais, a “fita”, são tornados públicos, mas sem contar quem são as partes.”

Satoshi Nakamoto foi responsável por desencadear uma avalanche de progresso com um sistema que realmente as pessoas poderiam usar, e inclusive estender e ramificar seu uso.

O bitcoin foi responsável pelo fortalecimento do movimento cypherpunk, permitindo que organizações como a Wikileaks continuassem operando através de doações de Bitcoin, mesmo após o sistema financeiro tradicional ter cortado o seu apoio.

Quando paro para pensar que esse movimento veio germinando desde a década em que nasci (1980), época em que com meus 8 anos de idade, coincidentemente em meu computador (na época um Apple II que foi importado nem sei como) eu brincava esporadicamente com o Elisa – o primeiro protótipo de inteligẽncia artificial – e estavam lá em algum lugar de São Francisco os cypherpunks imbuídos de planos para transformar para sempre a forma como lidaríamos com o mundo.

O desejo de liberdade sempre esteve presente, e a nossa luta contra os tentáculos estatais tẽm de ser travada por pessoas otimistas, como diz Rothbard.

Nós somos hoje as testemunhas e frutos do que o otimismo de vários libertários conseguiu materializar, abrindo as portas para um futuro não mais distante, a um sonho não mais utópico de moedas inelásticas e sem intervenção estatal, de privacidade e de liberdade econômica, sem as garras do estado.

“O que falta, portanto, são apenas as ‘condições subjetivas’ para a vitória, isto é, um corpo cada vez maior de libertários esclarecidos, que difundam entre os povos do mundo a mensagem de que a liberdade e o mercado totalmente livre oferecem a saída para seus problemas e crises. A liberdade não pode ser alcançada na sua plenitude a menos que existam libertários em número suficiente para conduzir os povos ao caminho certo.” (Rothbard, Direita e Esquerda – Perspectivas para a Liberdade. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.)

 


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